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Folha de S. Paulo conta a história da riachense que desapareceu no desabamento do prédio em São Paulo



Mãe, irmãos e os dois filhos de Selma. Foto: Folhapress

Na tarde de terça-feira (1), com ajuda de uma antena parabólica instalada no chão de terra ao lado da cisterna, Romelita Almeida Alves, 66, viu pela TV o desabamento de um prédio em chamas em São Paulo. Angustiada, disse à família: "Perdi minha filha e meus netos".

Romelita pensava na filha Selma Almeida da Silva, 40, e nos gêmeos Wendel e Wender, 10, três dos cinco desaparecidos após a tragédia em um edifício invadido pelos sem-teto —o corpo de um homem já foi localizado.

Até aquele momento, apesar do pressentimento ruim, Romelita nem sequer sabia que a filha morava no prédio de vidro do largo do Paissandu. Lembrava apenas que ela vivia no centro de São Paulo.


"Mas, quando vi aquela cena, meu coração me contou que ela estava lá." Cinco dos sete filhos que ainda moram no interior da Bahia tentaram acalmá-la e convencê-la de que não havia motivos para preocupação.

No dia seguinte, porém, um choque, quando a família reconheceu pela TV o ex-marido de Selma. Em seguidas entrevistas, Antônio Ribeiro Francisco, 42, dizia procurar o paradeiro da mulher e das crianças. Repetia ter conversado com Selma horas antes do colapso do prédio em que ela morava havia cinco anos.

A família, então, com ajuda de mensagens em redes sociais, conseguiu o contato do ex-marido por meio de um jornalista que cobriu a tragédia.



Casa onde reside a família de Selma, em Riacho de Santana. Foto: Folhapress
Por uma mensagem de celular, Antônio relatou a um dos irmãos: "A Selma... sem chance, meu querido. A notícia é triste, mas eu vou fazer o quê? Certeza

absoluta que ela está morta, e os filhos dela também estão... debaixo do prédio. Eu não posso fazer nada..."

Selma nasceu e cresceu em um povoado pobre do município de Riacho de Santana onde ainda vive a família. No centro-sul baiano, a localidade reconhecida como remanescente de um quilombo fica a 800 km de Salvador e a menos de 200 km da divisa com o norte de Minas Gerais.


A cidade tem cerca de 36 mil habitantes, uma economia dependente de recursos estaduais e federais e, segundo o IBGE, em 2010, tinha mais da metade da população com rendimento de até meio salário mínimo —R$ 477, em valor atualizado.

Por serem os mais velhos entre os sete irmãos, Selma e Gildevar ainda jovens ajudaram a mãe na lavoura de feijão, mandioca, milho, arroz e algodão, além da criação de vacas, bodes, ovelhas, porcos e galinhas, suficientes para a subsistência da família.

Além da roça, Selma recolhia lenha com o carro de boi que hoje está encostado no quintal da família. A lenha era queimada até virar carvão em uma fornalha agora coberta por mato na frente da casa.

Selma. Foto: arquivo pessoal
Selma também acompanhava a mãe todos os dias na busca por água em um lago próximo. Carregava a lata na cabeça. O rio São Francisco está a cerca de 50 km, em linha reta.

A casa em que ela cresceu é um retângulo com quatro pequenos quartos em cada canto. Ao centro, está a cozinha, que ainda tem o fogão a lenha. Na frente, uma sala com um teto sem forro que permite ver as telhas velhas apoiadas sobre uma trama de madeiras.

Em 1994, quando Selma completou 18 anos, Romelita recebeu a visita de uma amiga da filha. Ela, que havia se mudado para Campinas (SP), dizia teria um emprego a oferecer. A chance de sair do povoado ganhou a cabeça de Selma, cujas noites eram iluminadas por um candeeiro —a luz só chegou nos anos 2000, com placas da energia solar (e a fiação elétrica só em 2015).

Selma, então, partiu. Depois de Campinas, São Paulo. Morou na rua dos Clérigos e na av. Duque de Caxias, no centro. Na cidade teve os quatro filhos: Kevellyn, 14, Wendel e Wender, 10, e Itacir, 9. Dos filhos, apenas os gêmeos moravam com a mãe, os outros estão com a avó Romelita.


Outro Incêndio

Depois de ter trabalhado como atendente em uma padaria, Selma se tornou catadora de material reciclável. Atualmente trabalhava em uma cooperativa sob um viaduto no Glicério, na região central.

Mesmo com orçamento curto, sempre mandava dinheiro para ajudar a mãe e os filhos.

A ajuda foi essencial em 2006, quando a casa em que a família vive até hoje foi consumida pelo fogo. Naquele dia, como se o destino indicasse alguma coisa, a família inteira atuou como bombeiros, com os irmãos se revezando nos baldes de água no telhado e dentro da casa. "Nós ficamos mesmo foi só com a camisa do corpo. Documento de filho meu não ficou nada, nem o pó", relembra Romelita.


Foto: Folhapress

Selma, diz um dos irmãos, queria voltar para Agreste, perto da mãe. "Mas ela dizia que ainda não era hora, que ainda faltava mais um pouco", diz o agricultor Willian, 30.

Talvez ainda demorasse, já que, em São Paulo, Selma havia se cadastrado em um programa de moradia popular.

Com entrega atrasada há cinco anos, a obra da nova casa paulista de Selma fica a poucas quadras do último endereço dela, no prédio de vidro do largo do Paissandu.

Na Bahia, desde a tragédia, a família tenta contatos com algum político, eventuais chefes de Selma ou algum responsável pela administração do prédio que despencou para que possam ajudá-los na compra de passagens.

Um dos irmãos e a mãe querem acompanhar de perto as buscas em São Paulo. Uma funerária local cobrará R$ 7.500 para o traslado dos restos mortais de Selma e dos filhos, para que eles possam ser enterrados no Agreste.

  Folha de S. Paulo