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Mundo: Trump separa famílias que há anos estão no país





Casados há 22 anos, Marcelo e Meire se viram pela última vez em 21 de outubro e não têm ideia de quando voltarão a se encontrar. Presa pela imigração americana, ela foi deportada 40 dias mais tarde e não pode retornar aos EUA de maneira legal. Sem documentos, ele não tem como sair, a menos que seja para sempre.

As filhas do casal também foram separadas. A mais velha ficou com o pai, enquanto a mais nova se juntou à mãe em Minas Gerais. O aumento da deportação de pessoas sem antecedentes criminais durante o governo Donald Trump levou à multiplicação de casos como o de Marcelo e Meire, em que famílias estabelecidas nos EUA há anos são estilhaçadas da noite para o dia.


Os dois viviam em Framingham, Massachusetts, desde o início dos anos 2000. Ele está há 18 anos na cidade que reúne uma das maiores comunidades de brasileiros nos EUA. Ela chegou depois, com a filha mais velha do casal, que hoje tem 21 anos. A mais nova, de 11, nasceu em Framingham e é cidadã americana. Meire chorou durante quase toda a entrevista concedida por telefone de Conselheiro Lafaiete, onde vive com dois irmãos e trabalha na loja de autopeças de um deles.

"No ano passado, meu advogado me chamou e disse 'esse presidente que entrou vai mandar todo mundo embora'", lembrou.

A brasileira entrou duas vezes nos EUA de maneira ilegal: a primeira, em 2003, pelo México. A segunda, em 2011, pelas Bahamas, de barco. Nas duas, foi pega pela imigração e solta sob o compromisso de comparecer à audiência do processo de deportação. Meire ignorou a primeira intimação por orientação do advogado na época. Foi condenada à revelia. Quando retornou aos EUA, um novo advogado sugeriu que ela procurasse as autoridades de imigração.


De 2011 a 2017, ela se apresentava todos os anos e tinha sua permanência estendida. Isso mudou no dia 21 de outubro, quando ela foi direto para uma prisão em Boston. "O advogado disse que não podia fazer mais nada", disse. Marcelo já passou 18 de seus 41 anos de vida nos EUA e nunca voltou ao Brasil. "Finquei raízes aqui e é aqui que eu quero ficar."

À distância, o casal discute se Meire deveria se arriscar e entrar mais uma vez no país de maneira clandestina. "Eu tenho vontade de voltar, mas também tenho medo. Se for pega, eu não ficarei presa só por 40 dias", afirmou ela.

Segundo Marcelo, muitos brasileiros com família que foram deportados acabaram voltando pela fronteira com o México. Após deportar um número recorde de pessoas, muitas com família, o ex-presidente Barack Obama mudou de política nos últimos anos de seu governo e ordenou que os agentes dessem prioridade a imigrantes com antecedentes criminais. Mas Trump determinou que todos os que estão no país de maneira irregular devem ser alvo das autoridades.


O Projeto de Defesa do Imigrante estima que 16 milhões de pessoas vivem nos EUA em famílias de status migratório "misto", com pelo menos um membro não cidadão. Segundo a entidade, os que estão nessa situação vivem o constante temor de serem separados de pais, de filhos ou de irmãos por causa da política de Trump.

Marcelo e Meire estavam nos EUA de maneira irregular, mas têm uma filha que é cidadã. A mais velha é beneficiária do Daca, o programa de Obama que suspendeu a deportação de jovens levados ao país quando criança. No segundo ano de enfermagem, ela é uma das razões de Marcelo ficar nos EUA. Se Meire não conseguir voltar, ele disse que não terá outra saída a não ser retornar. "Quando terminar de pagar a universidade da minha filha, volto. Não vou destruir meu casamento de 22 anos". 

  Estadão Conteúdo  
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