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Rotina de assédio sexual e preconceito contra candidatas às eleições de outubro



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Manuela D'Ávila (PC do B-RS), 37, nem se preocupa mais em responder certo tipo de comentário em redes sociais. Como dialogar quando seu interlocutor diz que "o que queria mesmo Manu era foder vc gostoso sua vagabunda comunista [sic]"? Ou "nervosa logo cedo, parece que o marido não tem dado conta"?

Certamente lhe faltam palavras ao conferir na tela de seu celular o conselho para ir "chupar um canavial de rola".

Com Carla Zambelli (PSL-SP), 38, é o mesmo, só que com sinais trocados. Ser uma mulher de direita basta para colecionar ameaças de morte. "Depois morre e não sabe porque [sic]", escreveu um seguidor desgostoso de sua ideologia política. Outro dia mesmo, a candidata à Câmara fazia campanha e, ao passar por uma loja de tatuagem, ouviu um "ei, vem cá, gostosinha".



Entregou ao potencial eleitor um panfleto com sua foto e a de seu presidenciável. "Quando ele viu o número do Bolsonaro, mandou enfiar o santinho naquele lugar. 'Sai ou vou dar um tiro em você, sua vagabunda'", relata o que escutou.

A rotina de assédio contra candidatas não tem filtro ideológico. Atinge mulheres à esquerda e à direita nesta temporada eleitoral, com 8.892 candidaturas femininas (31%) entre as 28,5 mil chapas inscritas para disputar cargos no Legislativo e no Executivo.

Lia Lopes (PSB-SP), 30, vê um triplo desafio à frente: "Ser mulher, jovem e negra". "Por ser solteira, às vezes precisava ir com aliança [em atos de rua], e mesmo assim os homens são descarados", conta a aspirante a deputada.



O problema é que dar um passa-fora no engraçadinho --uma liderança que vá apresentá-la em certo distrito eleitoral, por exemplo-- pode dar a impressão de "que você está sendo dura, o que faz você perder votos". E isso nenhuma candidata de primeira viagem, caso dela, deseja.

Contra mãos bobas e abraços que duram mais do que deveriam, ela contratou um guarda-costas. Já as investidas virtuais chegam pelo WhatsApp da campanha, uma linha direta com o eleitor. Por ali, um homem perguntou se era casada. "Vamos manter um diálogo de respeito mútuo, pode ser?", Lia sugeriu. Ele devolveu com nudes.

Também nas redes sociais de Natalie Unterstell, 34, "é nude o tempo inteiro". Ela tenta ser deputada pelo Podemos paranaense, a sigla do presidenciável Alvaro Dias. Bolsista do RenovaBR, grupo que financia a formação de quadros inéditos no Congresso, Natalie esbarrou com um problema arcaico na política brasileira.



O que não falta é cacique insinuando que ela deveria abaixar a bola e tentar um cargo menor, diz Natalie, mestre por Harvard. É comum "mulher ser tratada como café com leite". E piora.

"Acho que tem uma coisa muito mais macro e horrorosa e machista pra caramba", que é "a história do acesso aos recursos". A priori, as legendas precisam passar 30% do fundo eleitoral para campanhas femininas. Mas não está claro se essa cota pode irrigar campanhas em que elas sejam vices ou suplentes. E a verba não necessariamente chega a novatas como Natalie.

"Recebi o aviso de que me dariam R$ 2.000. 'Essa é a média que a gente tá ajudando as candidatas mulheres.' Hello, né? Imagina, com R$ 2.000 você não faz nada", afirma.

  Folha de S. Paulo