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Casais gays adiantam casamentos para 2018, por temerem mudanças com Bolsonaro



Foto: reprodução


O casamento ainda não estava nos planos da assistente social Elaine Zingari, 41, e da terapeuta holística Karen Zingari, 36. Elas estão juntas há um ano e meio e planejavam oficializar a união somente no segundo semestre de 2019. Porém, antes que Jair Bolsonaro fosse eleito, em outubro, elas anteciparam o enlace para a semana anterior ao segundo turno. 

A decisão vem se repetindo entre casais LGBTs. O motivo é o medo de que o governo Bolsonaro tome alguma decisão no sentido de acabar com o direito à união estável e ao casamento civil entre pessoas do mesmo sexo garantido pela Justiça desde 2011.



A pressa e o receio do que pode acontecer no próximo governo também foi relatada por outros casais à reportagem do HuffPost Brasil. As repetidas falas de Bolsonaro sobre a comunidade LGBT ao longo de sua carreira política é o que potencializa a decisão dos casais. 

Em 2013, ele chegou a criticar a decisão do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) que obrigou os cartórios do país a realizar o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo. "Está bem claro na Constituição: a união familiar é [entre] um homem e uma mulher. Essas decisões só vêm solapar a unidade familiar, os valores familiares. Vai jogar tudo isso por terra", disse à época.



O tema não foi tão explorado durante a campanha, mas o então candidato chegou a assinar um termo de compromisso público com um grupo católico em que se comprometia a defender e promover o "verdadeiro sentido do matrimônio, como união entre homem e mulher".

O direito à união estável entre pessoas do mesmo sexo foi reconhecido pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em 2011. "A decisão unânime foi escrita de um jeito muito claro, dizendo que tanto casais homoafetivos como casais heterossexuais constituem famílias. Ela foi muito enfática sobre a igualdade plena de direitos e deveres dos dois tipos de casais", afirma Thiago Amparo, advogado e professor da FGV Direito SP. 



A partir do entendimento que as normas deveriam ser as mesmas, casais homoafetivos passaram a pedir também a conversão da união estável em casamento, como prevê o Código Civil. Com a resistência dos cartórios em reconhecer esse direito e até mesmo o que foi explicitamente garantido pelo STF, o CNJ aprovou, em 2013, uma resolução determinando que todos realizassem, além do reconhecimento da união estável, o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo. "A resolução veio para encerrar a insegurança jurídica", explica Amparo.

Porém, o direito ao casamento igualitário no Brasil continua não sendo garantido por lei, apenas pela Justiça. "Com o crescimento do Bolsonaro, a gente ficou preocupada que tivesse algum retrocesso em relação a isso. A gente sabia que não era uma lei, que era uma jurisprudência do STF, e que isso poderia muito bem cair", conta a jornalista Yasmin Abdalla, 28. Ela e a namorada, a também jornalista Raissa Pascoal, 27, optaram por antecipar os planos de casamento mesmo antes de saberem o resultado da eleição presidencial. 



Elas namoram há seis anos e meio e moram juntas há mais de dois. "No fundo, nenhuma das duas tinha o grande sonho de casar. A gente já se sente casada, já moramos juntas, já temos uma família. Agora a vida mostrou pra gente que é melhor garantir isso, porque não sabemos o que vai acontecer a partir do ano que vem", diz Yasmin. Ainda resolvendo os últimos trâmites burocráticos no cartório, as duas devem dizer o 'sim' perante o juiz no início de dezembro e celebrar em uma pequena comemoração entre familiares e amigos próximos.

O que Bolsonaro pode fazer contra o casamento gay

Hoje no Brasil não há nenhuma lei federal que garanta direitos à comunidade LGBT. "Enquanto não há legislação, existe um vácuo. Esse vácuo está sendo preenchido pela Justiça. Ela reconheceu as uniões, assegurou o direito ao casamento, o direito à alteração de nome e gênero, tudo dentro da omissão do legislativo. Mas se vier alguma regra desse lado, ela se sobrepõe às decisões da Justiça", explica a presidente da Comissão de Diversidade Sexual da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Maria Berenice Dias.



Há pouco mais de uma semana ela vem orientando que casais do mesmo sexo antecipem a oficialização da união até o final do ano, caso queiram manter direitos à pensão, à Previdência e à partilha de bens, garantidos pelo casamento, pois considera que o novo governo representa uma ameaça a essas garantias. A recomendação, que, segundo a assessoria de imprensa da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), foi feita de forma autônoma pela comissão, ganhou repercussão na mídia e na comunidade LGBT nos últimos dias. "Não quis ter uma postura alarmista, mas não dá para dizer que não há o risco", afirma Dias. 

"O novo governo possui vias jurídicas para ao menos tentar subtrair direitos LGBTs, inclusive ao casamento, seja por meio de projeto de lei, seja por uma medida provisória. Ambas as vias seriam claramente passíveis de contestação no STF, tanto com base na própria jurisprudência da Corte, que tem garantido direitos LGBTs na última década, quanto pela ausência do caráter de urgência, no caso de uma medida provisória. Em todas as hipóteses, casamentos já celebrados não seriam atingidos por uma mudança na regra", explica Amparo, da FGV. 



Bolsonaro sequer precisaria enviar um projeto ao Congresso, lembra o advogado, citando um projeto de decreto legislativo em tramitação, de autoria do senador Magno Malta (PR/ES), aliado do presidente eleito e que pode assumir um posto em seu gabinete.

A proposta visa sustar os efeitos da resolução do CNJ, que permitiu que pessoas do mesmo sexo se casem no civil, e aguarda designação de relator na Comissão de Constituição de Justiça do Senado desde 2015. "É possível que, com a nova configuração do Congresso, esses projetos andem mais rápido. A movimentação do governo Bolsonaro, com o próprio autor desse projeto assumindo um ministério [há rumores de que Malta se torne ministro], mostra um direcionamento para que isso possa ser tentado."



Na Câmara dos Deputados outros dois projetos de decreto legislativo tramitam em conjunto com o mesmo teor. Para serem aprovados, eles precisam do apoio da maioria simples do Congresso. Ou seja, basta que a metade mais um dos deputados e senadores estejam presentes em cada casa, e a maioria deles vote a favor. Outra dezena de projetos de lei tratando do assunto, seja para reconhecer ou cassar o direito ao casamento igualitário, tramita em conjunto na Câmara. As propostas aguardam análise na Comissão de Seguridade Social e Família.

"De um lado a gente tem uma jurisprudência constitucional forte mas, do outro, tem um Legislativo mais conservador que pode conseguir aprovar um projeto de lei que pode fazer com que a resolução do CNJ perca efeito, ainda que temporariamente", afirma Amparo. 



Dias, da OAB, acredita que uma legislação desse tipo será considerada inconstitucional pelo STF, mas avalia que a tramitação até que ela seja derrubada pode ser demorada. "Qualquer medida, ainda que descabida, vai vigorar até o Supremo dizer que ela é descabida."

Para o advogado e professor de Direito da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Renan Quinalha, uma legislação proposta por Bolsonaro contrária ao casamento homoafetivo seria rechaçada pelo STF e poderia ser questionada na Corte Interamericana de Direitos Humanos. Quinalha lembra da recente fala do ministro do STF Luís Roberto Barroso sobre a unidade da Corte na defesa de direitos fundamentais. "Acho que vai haver uma disputa em torno disso, mas existem várias razões jurídicas importantes para que isso não caia, incluindo o fato que o Supremo decidiu reconhecer a união por unanimidade", diz. 



O problema, para o advogado, é se Bolsonaro realmente intervier no Supremo e aumentar o número de juízes, como chegou a propor durante a campanha. Isso, na visão do jurista, poderia levar a um retrocesso no longo prazo. Para ele, no entanto, qualquer mudança nesse sentido não deve acontecer imediatamente. 

"Às vezes se criam certos pânicos. Acho que é justificado o temor, é razoável. Faz sentido estar preocupado nesse momento, porque, de fato, a gente vê um governo que é uma ameaça para as pessoas LGBTs. Mas eu tenho uma perspectiva que é possível resistir, que não está dado que isso será revertido."



Quinalha lamenta, no entanto, o retrocesso já presente no debate público. "A qualidade do debate público volta léguas para trás. A gente estava discutindo assegurar mais esses direitos, dar mais garantias. Mas agora tem que falar se esse direito vai continuar existindo ou não. Bolsonaro conseguiu intoxicar o debate público nessas questões, retrocedendo em coisas que a gente já tinha dado como um mínimo de patamar civilizatório de reconhecimento, em que a ideia era de avançar", afirma.

"Sinto que é uma grande injustiça só o fato de termos o medo de perder o direito. Ainda que nada mude, já é um sinal muito sério a gente ter esse medo", desabafa Yasmin. Ela e Raissa têm outros amigos que também por causa do medo estão se organizando para oficializar a união até o final do ano. Em resposta aos temores, 12 organizações do movimento LGBTI emitiram nota reafirmando seu compromisso com o enfrentamento da violência e com defesa das conquistas alcançadas nas últimas quatro décadas.



"Nossos direitos serão assegurados, lutaremos juntos/as por isso. A mensagem que deixamos aos/às gays, lésbicas, bissexuais, travestis, transexuais e intersexos é de que continuaremos enfrentando todas as adversidades que nos assolam desde o início da nossa organização enquanto movimentos sociais LGBTI", diz o comunicado assinado por grupos como a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), a Rede Nacional de Operadores de Segurança Pública LGBTI (Renosp -LGBTI) e a Associação Brasileira de Lésbicas (ABL). 

"Independente de quem esteja no poder, e diante da conjuntura que se apresenta, precisaremos aproximar ainda mais todas as organizações que compõem o Movimento LGBTI, a fim de fortalecer nossas bases sociais para preparar a resistência necessária às possíveis dificuldades que se avizinham", completa a nota.

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