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Educadores lastimam, mas não se surpreendem com escolha do futuro Ministro da Educação



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Foto: reprodução


Depois do veto a Mozart Ramos, do Instituto Ayrton Senna, e da má repercussão da sondagem ao procurador Guilherme Schelb, Jair Bolsonaro anunciou a escolha para o Ministério da Educação do colombiano Ricardo Vélez Rodríguez.

Indicado pelo "filósofo" Olavo de Carvalho, que emplaca um segundo seguidor no governo (o primeiro foi o diplomata Ernesto Araújo, futuro chanceler), Rodríguez fez questão de dizer logo a que virá. O futuro ministro comentou em seu blog pessoal: "Enxergo, para o MEC, uma tarefa essencial: recolocar o sistema de ensino básico e fundamental a serviço das pessoas e não como opção burocrática sobranceira aos interesses dos cidadãos, para perpetuar uma casta que se enquistou no poder e que pretendia fazer, das Instituições Republicanas, instrumentos para a sua hegemonia política."



O colombiano promete "enquadrar o MEC no contexto da valorização da educação para a vida e a cidadania". Afirma ainda que, nas últimas décadas, a proliferação de leis e documentos tornou os brasileiros "reféns de um sistema de ensino alheio às suas vidas e afinado com a tentativa de impor, à sociedade, uma doutrinação de índole cientificista e enquistada na ideologia marxista, travestida de "revolução cultural gramsciana".

A revolução gramsciana, diz, construiu-se com toda a coorte de invenções deletérias em matéria pedagógica como a educação de gênero, a dialética do "nós contra eles" e uma reescrita da história em função dos interesses dos denominados "intelectuais orgânicos", destinada a desmontar os valores tradicionais da nossa sociedade, no que tange à preservação da vida, da família, da religião, da cidadania, em soma, do patriotismo".



Rodríguez se alinha a várias bandeiras defendidas por Bolsonaro, como a expansão de escolas militares no país e o combate a uma suposta proeminência de ideias esquerdistas no ensino. Também pactua com as ideias do procurador Guilherme Schelb, que chegou a ser cotado para a pasta imediatamente após o futuro governo declinar da nomeação do educador Mozart Neves Ramos, diretor do Instituto Ayrton Senna, para o cargo. O tom moderado do especialista teria incomodado a bancada evangélica do Congresso e bolsonaristas na internet - alguns militantes de extrema-direita chegaram a afirmar que o educador era um "globalista".

Vélez Rodríguez também já defendeu em um artigo de setembro de 2017 a proposta do Escola sem Partido. “Esta é uma providência fundamental. O mundo de hoje está submetido, todos sabemos, à tentação totalitária, decorrente de o Estado ocupar todos os espaços, o que tornaria praticamente impossível o exercício da liberdade por parte dos indivíduos”, escreveu. O projeto segue sendo analisado por comissão especial na Câmara dos Deputados e tem nova votação agendada para a semana que vem, no dia 29, após um pedido de vista na quinta-feira 22.



CartaCapital conversou com educadores para entender como veem a nomeação de Rodríguez para o MEC. Confira.

Daniel Cara, coordenador da Campanha Nacional pelo Direito a Educação

Ricardo Velez Rodríguez tem apoio dos militares, atua no âmbito de conselhos de escolas militares e tem o apoio de Olavo de Carvalho que é o ideólogo do governo Jair Bolsonaro. Em 2017, Rodríguez defendeu o Escola sem Partido e, assim como Olavo, entende que a ideia de institucionalizar o ESP no âmbito de uma lei é ruim.

Ambos preferem que ele se configure como um movimento da sociedade, que atue em escolas e nas universidades combatendo o que eles chamam de 'marxismo cultural', algo que eles inventaram, assim como o conceito de 'ideologia de gênero' , que na prática não existem, mas que são estratégias de recrutar militantes para a ultra-direita, a partir de um pânico moral, ideológico, em pais de alunos e estudantes.

Vamos continuar a fazer uma oposição propositiva e democrática às posturas e políticas que provavelmente ele vai estimular no MEC, como a radicalização da ampliação das escolas militares pelo País.



Salomão Ximenes, professor da Universidade Federal do ABC

Recebo com extrema preocupação essa indicação porque ela sinaliza, de fato, a intenção de promover retrocessos bastante significativos na política educacional e nas condições de funcionamento das escolas e de trabalho pedagógico. 

O ministro não aparenta guardar nenhum tipo de compromisso com a agenda de política educacional construída no País nas ultimas décadas, a começar pelo Plano Nacional de Educação, as políticas de qualificação, ampliação e avaliação. 

Não há nada que indique compromisso com algumas dessas agendas estruturantes e que, inclusive, foram assumidas por atores de campos políticos bastante diferentes, como sindicatos e institutos empresariais. 



O fato é que havia uma agenda pactuada em torno do PNE e isso está em extremo risco nesse momento. O segundo aspecto é o fato de o seu principal mérito ser o de estar alinhado a essa paranoia coletiva que é o Escola sem Partido e a ideologia da 'ideologia de gênero' nas escolas. 

Isso vem sendo construído como uma plataforma de política educacional no País e traz, apesar do pressuposto equivocado, gravíssimos riscos à educação pública, na medida em que a disseminação dessas estratégias de censura e perseguição aos professores pode, na prática, destruir o ambiente pedagógico nas escolas e universidades brasileiras, implantando uma lógica autoritária e verticalizada. 

Se o MEC assume essa agenda como prioritária e positiva, a ser implementada em termos de política educacional, é trágico do ponto de vista do direito a educação, da política e da aprendizagem dos estudantes. 



Nelson Pretto, professor da Faculdade de Educação da UFBA

É uma lástima a indicação, mas obviamente não é uma surpresa. O governo eleito, em todos os campos, tem demonstrado que a plataforma do conservadorismo será efetivamente implantada e, mais do que tudo, com aliados da bancada evangélica atuando de forma direta na indicação dos dirigentes dos ministérios e, particularmente, em um dos maiores, caso do MEC.

Para nós, defensores das liberdades, da democracia, da escola e universidade pública é um momento extremamente preocupante, como tem sido tudo que vem sido apontado pelo novo governo. Teremos que resistir.

  Revista Carta Capital