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Nordeste ganha força, enquanto Bolsonaro perde por obedecer Donald Trump





Por: Carta Capital

Tudo indica que o estreitamento das relações econômicas entre a China e o Consórcio Nordeste, formado pelos nove estados da região, sem a intermediação de Brasília incomoda Bolsonaro não só por ideologia e preconceito, mas principalmente por reduzir o espaço dos negócios dos Estados Unidos em território nacional. O governador da Bahia e presidente do Consórcio, Rui Costa, disse a esta revista que a ação conjunta dos estados não se contrapõe a Brasília: “Nos próximos dias, publicaremos a primeira licitação para compra coletiva do Consórcio Nordeste. O foco inicial são produtos na área da saúde. Quando isso for concretizado, vai ficar ainda mais evidente que o nosso objetivo é melhorar a gestão e reduzir os custos dos estados nordestinos. O Consórcio não é um contraponto político ao governo federal. É uma forma de fazer mais e melhor pelas pessoas. Não vamos nos deixar contaminar pelo ódio que tem marcado a gestão do governo federal. Nosso objetivo é trabalhar para gerar emprego e renda e garantir dignidade às pessoas. O que a gente quer é cuidar de gente, é assegurar a retomada do crescimento da nossa economia”.



Na prática há, entretanto, um abismo entre os procedimentos na área internacional por parte do governo federal e dos governadores nordestinos, deixa claro esta explicação de Costa: “Vamos continuar buscando parcerias internacionais para gerar emprego e desenvolvimento, com respeito e muita diplomacia. O Consórcio vai, portanto, na contramão do que tem feito o governo federal, que tem acumulado uma série de insucessos nas relações internacionais, corroendo o resto de imagem que o País ainda tem no exterior. No Consórcio vamos fazer uma agenda em favor do Brasil e em favor do Nordeste”.

Não há uma preferência por países, sublinha o governador. “É importante que fique claro: não estamos limitando nossas negociações à China. A maior prova disso é que ela não está no roteiro da primeira missão internacional do Consórcio. Em novembro, devemos ir à França, Espanha, Itália e outros países europeus para prospectar novos negócios para o Nordeste. Queremos fazer compras para uma população de 55 milhões de pessoas, aumentando escala, diminuindo custos e prezando pela excelência dos serviços aos nordestinos. Mapeamos nossas potencialidades para o cruzamento de áreas de interesse com esses países. Saúde, meio ambiente, saneamento, segurança e energias renováveis já estão na pauta da nossa missão.”



A Bahia beneficia-se no momento da ação internacional do Consórcio. Na terça-feira 3, o governador reuniu-se com investidores chineses interessados no projeto de construção da ponte Salvador-Itaparica. O Sichuan Road and Bridge Group confirmou que participará da licitação do projeto, que será publicada neste mês. “A tendência é de que as relações comerciais com a China sejam estreitadas com o Consórcio. Os chineses também já sinalizaram interesse em participar de outros projetos, a exemplo da implantação do serviço de reconhecimento facial por meio de videomonitoramento, que hoje está em fase de projeto piloto na Bahia. Assinamos contrato com a chinesa BYD para implantação do VLT de Salvador e as obras começam este ano, ou seja, o horizonte é o mais otimista possível”, comemora Rui Costa. A ponte Salvador-Itaparica terá 12,3 quilômetros de extensão e será a 23ª maior do mundo.

A aproximação entre o Consórcio Nordeste e a China envolve, segundo a Folha de S.Paulo, a Huawei, a ZTE e a Dahua, entre outras empresas. A Huawei é a maior produtora mundial de equipamentos de telecomunicação e detém o maior número de patentes da revolucionária tecnologia de quinta geração (5G), essencial ao avanço da telefonia móvel e à evolução industrial, e por esses motivos está no centro do conflito comercial e tecnológico China-EUA.



O Brasil é decisivo tanto para a China como para os Estados Unidos, mas, por não ter estratégia de desenvolvimento, substituída pelo alinhamento automático aos EUA, não se beneficia das contradições das potências em conflito, explica o economista Ronaldo Fiani, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro: “O Brasil encontra-se no meio de um confronto geopolítico global em que todos os movimentos americanos e chineses no nosso território respondem à lógica deste embate. A falta de percepção dessa dimensão geopolítica, juntamente com uma política ingênua e simplista de alinhamento automático com americanos ou chineses compromete gravemente a defesa dos interesses do País”, alerta o economista. Não existe, diz, uma avaliação estratégica própria e, nesse contexto, “como a China é o nosso maior parceiro comercial e os Estados Unidos o nosso maior aliado político, vamos sendo empurrados de um lado para o outro”.

Fiani alertou, em 2016, para o choque de interesses de Estados Unidos e China em relação ao Brasil em torno do petróleo: “Nós temos não só grandes reservas no pré-sal como uma empresa de primeira linha, a Petrobras, com capacidade de explorar essas reservas, o que nos dá notável autonomia para aproveitar esse recurso, e essa estatal se encontra associada às companhias petrolíferas chinesas CNOOC e CNPC. Inseridos num espaço de influência americana, com uma empresa capacitada tecnologicamente para explorar o pré-sal, associada a empresas chinesas, estamos exatamente na linha de confronto. Ainda mais por termos um projeto de submarino nuclear que, por ser muito mais rápido que o convencional, tem capacidade de fechar o corredor do Atlântico”, disparou o economista.



A disputa mais recente pelo Brasil por parte dos EUA e da China ocorre na área de telecomunicações e tecnologia 5G. Dois meses depois de Trump pressionar Bolsonaro nos Estados Unidos, em março, para barrar a Huawei, o vice-presidente general Mourão assegurou ao presidente da China, Xi Jinping, em Pequim, que o governo brasileiro não banirá as tecnologias 5G da gigante chinesa. Com a perspectiva de licitação para implantar a 5G no começo de 2020, aumentou, entretanto, a troca de farpas sobre a presença da Huawei no Brasil. Na quarta-feira 28, o presidente da estadunidense AT&T, Randall Stephenson, recebido por Bolsonaro em Brasília, mostrou interesse em adquirir a Oi, caso o Congresso aprove novo marco regulatório, o que possibilitaria barrar a aquisição de tecnologia chinesa no País. No sábado 31, o vice-secretário assistente de Estado dos EUA, Robert L. Strayer, foi direto: “Caso o Brasil inclua empresas chinesas de tecnologia como a Huawei em sua rede 5G, os EUA podem reavaliar o compartilhamento de informações que mantêm com o País”.

A pressão foi criticada pelo ministro-conselheiro da embaixada da China no Brasil, Qu Yuhui: “Essa declaração é muito ruim, porque é uma ameaça em relação a uma decisão que deveria ser tomada por um país soberano”. A China tem, segundo Qu, 37% do total das patentes na área de tecnologia 5G e a Huawei conseguiu fechar mais contratos de 5G que as suas concorrentes. São 45 contratos até agora em 30 países, inclusive alguns com relação muito próxima com os EUA, como a Arábia Saudita.



Banir a empresa chinesa do País, como querem o governo dos Estados Unidos e seus representantes no governo brasileiro, esbarraria, contudo, em ao menos dois problemas práticos: 1. A Huawei está no Brasil há 21 anos, fornece 50% dos equipamentos utilizado pelas sete maiores operadoras do mercado (incluindo Vivo, Claro e Tim). 2. Os EUA admitem não dispor de tecnologia 5G equiparável à chinesa em qualidade e preço e reconhecem que as empresas que mais se aproximam da Huawei nesses quesitos são a finlandesa Nokia, a sul-coreana Samsung e a sueca Ericsson.

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