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Terceirizados e precarizados, operadores de telemarketing se arriscam ao contágio em salas sem janelas




A operadora Vanessa Ferreira, de 27 anos, morreu pela Covid-19. O MPT investiga a morte. Foto: Facebook
Por: Rute Pina / Agência Pública

“Quando a gente ouviu falar em evitar aglomerações porque o vírus se propaga mais rápido, todo mundo ficou desesperado”, conta a teleoperadora Beatriz Silva*, ao lembrar a reação dos colegas de call center ao ouvir as primeiras notícias sobre o avanço da pandemia de coronavírus no país. “Isso é tudo o que uma operação de telemarketing é: um lugar totalmente fechado, sem janelas, com ar-condicionado por todos os lados.”




A quarentena decretada no final de março em Pernambuco – onde Beatriz trabalha – não aliviou o problema. O telemarketing consta do rol de atividades essenciais definidas pelos governos federal e estaduais para manter o atendimento de outros serviços com permissão para funcionar durante a pandemia, e os funcionários de call centers no Recife continuaram a trabalhar, segundo eles, sem ter recebido nenhuma orientação da empresa.

“O telemarketing sempre foi um setor problemático porque, além de ser muito estressante, as condições de trabalho colaboram para esse ambiente. É muita cobrança, muito destrato, não só do cliente, mas na empresa. Então, qualquer coisa que acontece é motivo para estourar. Essa questão do coronavírus foi um estouro porque a empresa, mais uma vez, se posicionou como sempre se posiciona, que é não falando com a gente”, lembra Beatriz.




A falta de comunicação era tão grande que outra funcionária da Liq, Letícia de Almeida, de 24 anos, resolveu expor o problema nas redes sociais. A jovem havia acabado de descobrir uma gestação, mas a empresa não havia orientado os funcionários sobre as providências em relação à pandemia. Em post no Instagram, ela relatou a desproteção e o sentimento de insegurança dos funcionários, especialmente dos que estavam em grupos de risco. “No outro dia, a coordenadora me chamou na mesa dela, disse que achou bom meu posicionamento, e disse que mandaria para casa os idosos”, lembra Letícia. A partir daí, a empresa finalmente afastou quem estava no grupo de risco e ampliou o número de funcionários da limpeza, recomendações feitas ao setor pelo Ministério Público do Trabalho (MPT). No momento, ela está com o contrato de trabalho suspenso.

Beatriz, que continuou trabalhando, sentiu os primeiros sintomas da doença no início de maio. “Eu fui ao posto de saúde do meu bairro e eles disseram que era uma gripezinha porque eu não apresentava os principais sintomas, que seriam tosse e cansaço”, relatou em entrevista à Agência Pública. Com o agravamento do quadro, acabou sendo internada uma semana depois. “Fizeram raio-X e diagnosticaram que eu realmente estava com Covid-19. Mas não fiz o teste por falha do próprio hospital. O médico não quis preencher um formulário”, relata a jovem. O exame, feito mais tarde, deu positivo para os anticorpos do novo coronavírus.




A empresa Liq, onde Beatriz trabalha, é a segunda maior do segmento em número de empregados: tem cerca de 30 mil funcionários em dez estados do país. Antes da pandemia, até 15 equipes – cerca de 300 pessoas – trabalhavam juntas em uma mesma sala na filial do Recife. Na categoria, a maioria ganha um salário mínimo por uma jornada de 36 horas semanais, o máximo de tempo permitido por causa do estresse decorrente da profissão.

A funcionária estima que ao menos dez dos 20 membros de sua equipe de trabalho apresentaram algum sintoma da doença. “Tem pessoas que estão sem sentir cheiro, sem paladar. Esses sintomas são característicos do coronavírus, mas não são sintomas agudos. Então, elas acabam não se afastando, não vão até o hospital e continuam trabalhando por medo de demissão”, afirma.




O caso da operadora Aline Rodrigues, de 36 anos, também do Recife, mostra que o temor de perder o emprego não é infundado. Seu contrato de trabalho na empresa Speedmais, onde estava em período de experiência desde fevereiro, foi rescindido depois de ter sido diagnosticada com a doença no dia 5 de abril.

Hipertensa e com diabetes, ela não conseguiu apresentar a tempo os laudos médicos exigidos pela empresa. Por isso só rompia o isolamento para trabalhar. “O contágio provavelmente foi na empresa, porque era do trabalho pra casa e de casa para o trabalho”, conta.




O quadro médico de Aline se agravou e ela ficou internada em uma unidade de tratamento intensivo (UTI) do Hospital Ilha do Leite por nove dias, monitorada e com administração de oxigênio via cateter. “Foi horrível, ver a morte de perto sem poder ter contato com ninguém, só pelo celular. Quase fui intubada. E quando saí do hospital ainda ser demitida por causa do atestado. Fiquei muito decepcionada.”

A ex-funcionária conta que a empresa enviou um e-mail informando que havia sido desligada, sem nenhum esclarecimento. “Essa pandemia foi injusta para muitos operadores de telemarketing”, diz Aline. “Procurei o sindicato por telefone e o advogado disse que a empresa poderia fazer isso porque eu estava em período de experiência”, relata ela. “Aí fica minha revolta. E se eu tivesse morrido?”, indigna-se. (Reportagem completa)




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