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Damares faz “leitura sensacionalista” de filme que quer censurar, dizem especialistas



Foto: divulgação


Por: Ana Luiza Basílio / Carta Capital

O filme francês Mignonnes (Cuties, em tradução para o inglês, e Lindinhas para o português), disponível na plataforma Netflix, está na mira da ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves.

Na segunda-feira 21, o secretário Maurício Cunha, da Secretaria Nacional de Direitos da Criança e do Adolescente, pasta vinculada ao Ministério, solicitou a suspensão imediata do filme da plataforma.

A alegação é de que a obra promove a sexualização das protagonistas, meninas de onze anos de idade que integram um coletivo de dança.

No ofício encaminhado à Comissão Permanente da Infância e Juventude (COPEIJ), ligada ao Ministério Público, Cunha afirma que o filme possui cenas de pornografia infantil, além de normalizar a hipersexualidade das crianças.



Em um trecho do documento, que ainda pede que seja apurada a responsabilidade pela oferta e distribuição do “conteúdo pornográfico”, a secretaria se refere ao filme como algo “longe de ser entretenimento ou liberdade de expressão” e que, “na verdade, afronta e fragiliza a normativa nacional de proteção à infância e adolescência, além de se tratar de apologia a crime de pornografia infantill, caso em que requer a atuação dessa Comissão Permanente da Infância e da Juventude”.

A reportagem de CartaCapital entrou em contato com a Copeij para entender o desdobramento do caso, mas não teve respostas até o fechamento.

Em nota, a Netflix rebateu a polêmica levantada pelo governo. “Mignonnes é um comentário social contra a sexualização de crianças. É um filme premiado e uma história poderosa sobre a pressão que jovens meninas enfrentam nas redes sociais e também da sociedade. Nós encorajaríamos qualquer pessoa que se preocupa com essas questões importantes a assistir ao filme”.

“Leitura sensacionalista”

Três educadoras ouvidas pela reportagem de CartaCapital, especialistas no trabalho com cinema e educação, também criticam a tentativa do governo de censurar a obra.



Para a secretária executiva do Cineduc: Cinema e Educação, Bete Bulara, a leitura da equipe de Damares é sensacionalista e tem o propósito de causar desconfiança sobre uma temática importante, mas que não interessa aos denunciantes.

“O filme não expõe as crianças, mas a sexualização crescente delas pela nossa sociedade. Há uma crítica feroz a todo o sistema social que temos”, avalia a especialista, formada em cinema e atuante em cursos e oficinas para professores, crianças e adolescentes sobre a linguagem áudio visual.

“A obra nos coloca a refletir sobre a dinâmica das redes sociais, que expõem meninos e meninas à cultura dos likes, da exibição constante e da aceitação”, diz a especialista.

Para a professora da rede pública de São Paulo Regiane Osti, que trabalha com cine clubes com estudantes de periferia, o filme dialoga com a realidade.



“Crianças e adolescentes têm cada vez mais acesso a informações, sem formação para entendê-las. Nós, adultos, sociedade, temos a obrigação de orientá-los sobre os limites dessa relação com o mundo digital, e pautar temas como a importância do corpo, sexualidade, sexo, pedofilia. Ainda temos esse diálogo em falta nas famílias, nas escolas e na sociedade”, avalia.

Soma ao coro a educadora Claudia Mogadouro, fundadora do coletivo Janela Aberta, direcionado a refletir sobre a presença do cinema no processo educativo.

“Além de fazer uma crítica a uma questão comum ao mundo, já que não é só na França que as crianças são hipersexualizadas, o filme é uma defesa da infância e não só não pode ser censurado, como tem que ser compartilhado entre familiares e educadores”, entende.

Claudia ainda chama a atenção para a classificação indicativa do filme, de 16 anos. “A obra tem respaldo na classificação indicativa, que é um instrumento democrático, que surge após o fim da censura em 1988. Não estamos aqui defendendo que o filme seja discutido com crianças, mas com adolescentes, e a participação dos adultos. Precisamos parar de ser hipócritas e refletir sobre os conteúdos que nós estamos oferecendo às crianças e adolescentes, além de parar de ignorar o papel formador da mídia na vida deles”, completa.



As entrevistadas ainda citam outros temas que podem ser refletidos a partir do filme, como o papel das religiões na emancipação dos indivíduos, sobretudo das mulheres [a personagem Amy, interpretada por Fathia Youssouf, é educada a partir de conceitos tradicionais da religião muçulmana], racismo, questões de gênero, e sexualidade.

A importância da educação sexual nas escolas

Para as educadoras, a obra ainda escancara a necessidade da educação sexual estar presente na formação de crianças e adolescentes.

O filme dialoga com o início da sexualidade das meninas e mostra cenas em que as personagens demonstram um entendimento errado sobre o uso da camisinha.

Bete Bulara reforça que a sexualidade é algo inerente aos adolescentes e que a questão tem que ser abordada com naturalidade e responsabilidade.



“É a etapa da chegada do desejo genital, da descoberta do corpo do outro, das mudanças hormonais. A sexualidade existe e precisa ser discutida. E vemos uma tentativa de anular isso”, critica a educadora.

Regiane também comenta as distorções recorrentes acerca do tema. “É um absurdo tentar levar adiante a ideia que abordar a sexualidade é uma forma de estimular o início à vida sexual. Estamos falando do conhecimento ao corpo, de proteção”, coloca a educadora, citando o conhecimento como necessário para combater casos de violência sexual e estupro.

Polêmica com cartaz

Lançada em 9 de setembro, a obra francesa, dirigida pela cineasta e roteirista Maïmouna Doucouré, enfrentou uma polêmica inicial pelo uso da sinopse e cartaz escolhidos pela plataforma Netflix na divulgação. O filme chegou a ser condenado por uma campanha nas redes sociais que pedia o seu cancelamento.

A empresa pediu desculpas e alterou não só o texto da sinopse que acompanhava a obra como o cartaz de divulgação.



A sinopse inicial trazia as seguintes informações. “Amy, 11, fica fascinada com uma equipe de twerking. Na esperança de se juntar a ela, começa a explorar sua feminilidade, desafiando as tradições de sua família.”

O texto foi alterado para: “Aos 11 anos, Amy começa a se rebelar contra as tradições conservadoras da família e encontra seu lugar em um grupo de dança da escola”. O cartaz de lançamento também foi alterado.

“Pedimos perdão pela arte inapropriada que usamos para o filme ‘Cuties’. Foi errado, e a arte não representava corretamente o conteúdo deste filme francês que venceu 1 prêmio em Sundance”, publicou a Netflix no Twitter, no dia 20 de agosto.

A plataforma também veiculou um vídeo com a diretora da obra falando sobre o filme. Maïmouna afirma que a produção do filme envolveu o encontro com centenas de pré-adolescentes para entender como elas veem a feminilidade na sociedade atual e como lidam com a autoimagem em tempos de mídias sociais.



“Nossas meninas veem que quanto mais uma mulher é sexualizada nas redes sociais, mais ela faz sucesso. E as crianças apenas imitam o que elas veem, tentando alcançar o mesmo resultado, sem entender o significado disso. E, sim, é perigoso”, diz em um trecho do vídeo.

“Vi tantas injustiças ao meu redor que as mulheres estavam experimentando e guardei toda essa raiva dentro de mim. Eu era impotente quando era criança. Hoje posso usar minha voz, minha arte e compartilhar minha visão de feminilidade, minha luta pela liberdade das mulheres na sociedade e em nossas mentes também. Eu coloquei o coração nesse filme porque ele é minha história”, coloca em outro trecho.


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