Breaking News

Saída de Pazuello é inútil se Bolsonaro continuar ajudando o coronavírus


Por: Leonardo Sakamoto / UOL

O general Eduardo "Especialista em Logística" Pazuello deve deixar o comando do Ministério da Saúde nos próximos dias. Será lembrado como alguém que lutou bravamente e fez o impossível pelo bem-estar... do coronavírus. Seja apresentando um plano picareta de vacinação, deixando kits de testes vencerem em um galpão ou permitindo que pessoas se asfixiassem lentamente por falta de insumos, ele foi cúmplice da morte evitável de milhares de brasileiros.



De acordo com reportagem de Paulo Cappelli e Natália Portinari, do jornal O Globo, ele teria alegado problemas de saúde para o pedido de demissão. Se isso não for uma justificativa esfarrapada do governo, desejo que ele encontre todas as condições para se tratar - condições que negou aos brasileiros através de sua gestão omissa, incompetente, insensível e violenta. Ironia: problema da Saúde de 210 milhões, Pazuello sairia por problema de saúde.
Mas ele deve sair, de qualquer jeito, para dar um respiro para o governo. Da mesma forma que rifou o então ministro da Educação, Abraham Weintraub, para acalmar os ânimos do Supremo Tribunal Federal (que estava cavando fundo no inquérito sobre fake news e atos antidemocráticos), Jair Bolsonaro agora se prepara para trocar Pazuello e esvaziar os pedidos por uma CPI da Pandemia e os ânimos de ministros do STF e de uma grande parte da sociedade, insatisfeita com a falta de vacinas e a demora no auxílio emergencial.

Claro que a fonte dos problemas na pandemia não é Pazuello, mas o próprio Bolsonaro. O ministro não surgiu de geração espontânea a partir de mofo em uma farda vazia num armário. Ele se tornou um perigo sendo um fantoche do presidente.


Pazuello não terá direito à absolvição pela História, uma vez que foi consciente de seus atos. Poderia ter largado a posição diante do aprofundamento da necropolítica do chefe, como fez Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich. Preferiu endossá-la.



Em outubro do ano passado, ele foi desautorizado pelo presidente da República em público após ter anunciado a intenção de compra das primeiras 46 milhões de doses da Coronavac, produzida pelo Instituto Butantan. Apareceu em um vídeo ao lado do chefe, num papel humilhante, dizendo que seguiria a decisão porque "um manda e o outro obedece".

Pazuello fez bem o papel de ponta-de-lança da ignorância bolsonarista. Ao ponto de, em meio à segunda onda da covid em Manaus, ter mandado uma missão de médicos à capital amazonense para disseminar cloroquina e ivermectina, remédios sem eficácia contra a covid-19. Apesar de ter entrado para o anedotário mundial, Maria Antonieta, rainha da França no século 18, nunca disse "se o povo não tem pão, que coma brioches". Também não há registro de que Pazuello tenha dito: "se o manauara quer oxigênio, que engula vermífugo". Mas foi o que, de fato, fez.

Após ter passado quase um ano atacando a vacina, o presidente a abraça sob o risco de ser engolido pela realidade e atropelado por um Lula que ressurge à política eleitoral defendendo o imunizante e combatendo o negacionismo bolsonarista.

Mas como ele não comprou doses suficientes no ano passado, não estaremos totalmente imunizados até 2022. E a única ação que poderia nos proteger, o isolamento social, é diariamente bombardeada por ele, que está mais preocupado com os danos para a economia e para a sua reeleição do que em salvar gente.



Nesse sentido, de pouco adianta trocar o ministro da Saúde se o próximo for um títere que diz amém diante de um chefe que brada que quarentena e lockdown são ataques à democracia e que aceita passivamente o fato de Bolsonaro se negar a agir em conjunto com prefeitos e governadores.

O presidente precisará decidir se quer tentar um reposicionamento de marca na pandemia, mostrando-se mais cuidadoso com a vida humana, ou se deseja continuar alimentando os 12% a 16% de bolsonaristas-raiz que, neste domingo (14), foram às ruas protestar pela saúde do vírus e que sustentam Jair mesmo nos momentos de crise. Ele adota a estratégia de discursos diferentes a públicos diferentes, como esta coluna vem revelando há mais de dois anos. Mas uma hora, ela começa a flopar.

Há um momento em que personagens da História são chamados a decidir como serão lembrados. Alguns assumem para si a responsabilidade, e conduzem seu povo, sacrificando interesses pessoais em nome de algo maior. Outros, cruzam os braços, culpando aqueles que resolvem fazer algo, atacando o mensageiro, aliando-se ao inimigo, sabotando soluções, deixando o povo à própria sorte.

O primeiro grupo é dos líderes e heróis. O segundo grupo, o do presidente e de seus auxiliares.



Nenhum comentário

Os comentários publicados não representam o pensamento ou ideologia do Portal Lapa Oeste, sendo de inteira responsabilidade dos seus autores.